Fórum Popular de Saúde do Estado de São Paulo

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Alckmin oferece mamografia como presente de aniversário e usa a saúde e o medo para ganhar votos

Alckmin oferece mamografia como presente de aniversário e usa a saúde e o medo para ganhar votos

O Portal UOL noticiou hoje (http://zip.net/btmjNw) que “mulheres terão mamografia grátis sem pedido médico no mês do aniversário”. Segundo a notícia, as paulistas de 50 a 69 anos poderão marcar o exame por telefone, no mês de seu aniversário, sem serem avaliadas presencialmente por qualquer profissional de saúde. Muitas cidadãs poderão achar isso uma boa notícia, afinal a mamografia promete detectar lesões cancerosas iniciais e permitir tratamento precoce. Entretanto, duas perguntas precisam ser respondidas: por quê escolher essa medida de saúde, que não é isenta de riscos e que as mulheres já têm direito de realizar quando indicado; e qual é o contexto em que oferecer um exame parece um grande favor.

Em primeiro lugar, a mamografia é uma radiografia que permite a detecção precoce de lesões com risco de se tornar câncer ou mesmo cânceres em estágios iniciais. Ou seja, ela não previne o câncer, como a pílula anticoncepcional previne a gravidez ou a vacina antitetânica previne o tétano (na maioria das vezes): ela detecta lesões que podem ser ou virar câncer. Eis o primeiro problema: como todo exame, ela está sujeita a falsos positivos (imagens que parecem perigosas e após biópsia ou cirurgia descobre-se que não são) e muitas das lesões detectadas levariam anos para se tornar um problema de saúde importante – ou seja, a mulher morreria de qualquer outra coisa sem nem conhecer a tal lesão. Um segundo problema é que o exame submete a mulher repetidamente à radiação – e radiação, como todos sabemos, pode por si só gerar câncer!

Essas características do exame levam à recomendação do Instituto Nacional de Câncer (http://www2.inca.gov.br/wps/wcm/connect/tiposdecancer/site/home/mama/deteccao_precoce) de realizar o exame de dois em dois anos, dos 50 aos 69 anos, em mulheres de baixo risco de surgimento de câncer (a maioria delas), e começar avaliações com ultrassonografia antes dos 40 anos nas mulheres de alto risco de surgimento de câncer (as que têm parentes de primeiro grau com câncer de mama, por exemplo). Ou seja, o exame não está indicado para todas as mulheres, nem com maior frequência, sob risco de causar dano às suas saúdes – como exposição à radiação e biópsias e cirurgias desnecessárias (confira http://www.actasanitaria.com/en-5-palabras-la-mamografia-no-salva-vidas-tambien-en-5-palabras-dejad-las-tetas-en-paz/).

Existem muitas ações de saúde disponíveis às mulheres; entretanto, cada uma delas têm indicações e contra-indicações. Uma mulher que sente pontadas no peito pode achar que precisa de uma mamografia, mas o mais adequado é consultar um profissional de saúde para que juntos escolham a melhor intervenção para ela – seja uma consulta com exame físico e aconselhamento ou mesmo algum exame complementar.

Isso nos leva à segunda questão: por que dispensar as mulheres de uma consulta com médico(a) ou enfermeiro(a) para realizar mamografia parece uma coisa tão boa? Porque a maioria delas têm dificuldade de acessar um serviço do SUS, de marcar uma consulta em um posto de saúde, de conversar com um profissional que a avalie e aconselhe. E isso decorre do desinvestimento crônico da saúde, em nome do superávit primário e da opção por medidas midiáticas como a que escolhe o governador de São Paulo. É como se ele dissesse: “nosso sistema não presta, mas para fazer mamografia, vocês não vão precisar pegar fila no posto de saúde!”. Parece que “dar” o exame dá mais votos que resolver as filas; e um exame só pode virar presente de aniversário em um sistema que não funciona.

O câncer de mama é responsável por menos de 3 em cada 100 mortes de paulistanas, e é claro que é um problema grave e que amedronta muitas mulheres. Mas as doenças do aparelho circulatório (como infarto e derrame), que têm clara associação à falta de atividade física, tabagismo, alimentação inadequada e stress, respondem por 32 em cada 100 mortes. Quer trabalhar para que as mulheres morram menos, governador? Garanta que tenham moradia e transporte adequados, para que tenham tempo e local para praticar esportes; que não sejam exploradas em seus empregos e que tenham creches para seus filhos, diminuindo sua ansiedade e medo; e que tenham acesso a serviços de saúde qualificados que possam oferecer a ajuda que realmente precisam. Isso salva mais vidas que mamografias.

Antônio Modesto
Médico de Família e Comunidade

CRM-SP 130779

2 comentários:

  1. Sobre a radiação, é necessária para se fazer o exame, este que será disponibilizado pelo Estado uma vez por ano gratuitamente, ou seja, acho muito bom e muito válido esta proposta. Se fosse simplesmente liberado indiscriminadamente, o custo sairia muito caro para o Estado. Não acho legal criticar incentivos como este quando o que se está tentando em melhorar a saúde das pessoas descobrindo de forma precoce o cancer. Parabéns ao Governador Alckimin e às mulheres paulistas por mais esta conquista.

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    1. Olá, Júlio.

      A crítica do texto é bastante pertinente pois há no momento um intenso debate sobre a eficácia da mamografia enquanto método efetivo de rastreamento do Câncer de Mama.

      Essa semana, por exemplo, tivemos a publicação de um grande estudo canadense, com mais de 90 mil mulheres e seguimento de 25 anos, mostrando que a mamografia não tem efeito melhor do que o exame físico anual na prevenção de mortes por câncer de mama. Apesar de a mamografia não diminuir a mortalidade, aparentemente pode aumentar a morbidade, pois está relacionada a falsos diagnósticos e, desse modo, também a mastectomias desnecessárias - não é um exame inofensivo, e os problemas vão muito além da radiação.

      O ideal é que cada mulher entre 50 e 59 anos seja orientada sobre os riscos e benefícios envolvidos e decida, juntamente com sua equipe de saúde, sobre fazer ou não o rastreamento bianual.

      Abaixo alguns links que podem ajudar no debate:

      http://visao.sapo.pt/mamografias-anuais-preventivas-nao-reduzem-as-mortes-por-cancro-da-mama=f769099

      http://www.bmj.com/content/348/bmj.g1403

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