Fórum Popular de Saúde do Estado de São Paulo

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Dengue em Campinas: uma tragédia anunciada e evitável

Nas últimas semanas, quase não se fala em outro assunto em Campinas. Quem ainda não teve dengue certamente tem parentes, vizinhos, amigos ou colegas de trabalho que foram vítimas da doença em 2014. Mais grave ainda: já foi confirmada uma morte pela doença neste ano, e há outros casos em investigação.

Não restam dúvidas de que a atual epidemia atinge toda a cidade de Campinas, e há indícios de que ela deve ser a maior desde a década de 1990, quando o vírus da dengue voltou a circular pelo Brasil. Mas por que isso está acontecendo? Qual o real tamanho do problema? O que precisa ser feito para que 2015 não seja ainda pior?

  Desde 1998, em todos os anos Campinas registrou casos confirmados de dengue, em um número que chegou até 11.442 (em 2007). Ou seja, nesses dezesseis anos o vírus da dengue sempre esteve presente na cidade, assim como o mosquito que o transmite (Aedes aegypti). Nenhum de nossos gestores públicos pode alegar que a dengue chegou agora, ou que foi pego de surpresa por ela!

Para entender a verdadeira tragédia anunciada que está acontecendo agora, é importante olharmos para o que ocorreu em 2013. No ano passado todos nós falamos muito pouco sobre dengue, não é? Mas a verdade é que a epidemia de 2013 foi a segunda maior até hoje, perdendo apenas para 2007: 6.976 casos confirmados, espalhados por todas as regiões da cidade. Em 2014 o total de notificações (suspeitas) já ultrapassa 12.000, e ainda estamos na metade de abril! Até os exames confirmatórios do diagnóstico já pararam de ser feitos, como é comum quando já se tem um alto número de casos.

Se em 2013 tivemos uma epidemia tão grande, era inevitável que a situação em 2014 fosse ainda pior, certo? Claro que não! Como a transmissão só acontece se o mosquito estiver presente, a dengue pode e deve ser prevenida com medidas simples – a principal delas, que todos conhecem, é não deixar acumular água parada.

Por um lado, é verdade que esse trabalho de prevenção depende de cada um de nós, que precisa cuidar da sua própria casa, não deixar acumular água em nenhum recipiente, proteger a caixa d'água, não jogar lixo nas ruas... Mas a ação individual não é suficiente: se a questão é de saúde pública, é obrigação do poder público (municipal, estadual e federal) fazer sua parte também! Afinal, “Saúde é direito de todos e dever do Estado”, como diz a Constituição Federal.

Pode-se dizer que a atual epidemia está acontecendo única e exclusivamente porque as pessoas deixaram acumular água parada nas suas casas, ou jogaram lixo na rua? Claro que não! Essa é apenas uma parte do problema. A mais grave das omissões foi justamente a do governo municipal, que é responsável (entre outras coisas) por orientar as pessoas e verificar se essas orientações estão sendo cumpridas. E por que foi que o governo se omitiu de seu dever?

Para entender isso, precisamos lembrar que o maior problema do Sistema Único de Saúde (SUS) em Campinas não é a falta de medicamentos, equipamentos ou prédios adequados para as unidades. Isso tudo acontece sim, mas o maior problema é falta de pessoas, que são essenciais para o funcionamento de qualquer serviço de saúde!

Fala-se muito da falta de médicos (e na hora da epidemia eles são realmente muito necessários!), mas para a prevenção da dengue são outros os trabalhadores mais importantes: agentes comunitários de saúde (ACS) e agentes de controle ambiental (ACA). Os ACS são a principal ligação entre a rede de saúde e a população, responsáveis principalmente pelo trabalho educativo. Já os ACA fazem o trabalho mais operacional, de remoção dos criadouros do mosquito.

Com o fim do convênio com o Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira, que contratava os ACA por meio de uma terceirização irregular, a Prefeitura foi obrigada a substituir mais de 100 ACA terceirizados por servidores concursados. Já se passaram dezesseis meses desde que o atual prefeito tomou posse, e ainda assim a reposição dos ACA demitidos ainda não foi integral, pois está sendo feita a conta-gotas. Matéria recente do jornal Correio Popular falou em um déficit de 300 ACA, que não foi negado pela prefeitura. Qual será a prioridade do prefeito Jonas Donizette, para que não contrate esses trabalhadores imediatamente? Existe algo mais importante que a saúde da população?

Já o caso dos ACS é ainda mais crônico e grave: com cerca de 1.100.000 habitantes, Campinas deveria ter pelo menos 1.400 Agentes Comunitários de Saúde, para que cada um deles fosse responsável por uma região com 750 pessoas. O número de ACS, que nunca passou de 569 (em 2006), hoje em dia é de somente 397. É como se cada agente tivesse que fazer o trabalho educativo e preventivo com 2.800 pessoas – o que é humanamente impossível!

Como se não bastasse o número reduzido de trabalhadores, o descaso do atual governo com a dengue se manifestou também de outras formas. Desde 2012 a já desfalcada equipe de ACA não tem realizado uma de suas principais atividades, a vedação de caixas d'água, por não dispor de Equipamentos de Proteção Individual (EPI) adequados para o trabalho em altura. Além disso, a Prefeitura decidiu não remover os escombros de diversas áreas de ocupação que foram despejadas, talvez como forma de evitar novas ocupações. Nem mesmo os ACA eram autorizados a entrar nessas áreas! Recebemos informações de que o grande número de casos na região do bairro Florence tem relação com a presença (deliberada!) de entulho no local.

Além disso, vale lembrar que toda a rede do SUS em Campinas (hospitais, pronto-socorros, centros de saúde, SAMU, entre outros) já estava sobrecarregada muito antes da atual epidemia de dengue, e agora está muito mais! Muitas das consequências negativas da epidemia, inclusive os casos graves e as mortes, podem assumir proporções ainda maiores diante desse verdadeiro caos na rede.

Por fim, merece ser comentada a atitude do prefeito e do secretário de saúde com relação ao atendimento neste feriado prolongado (18-21/abril). Embora o calendário de feriados seja conhecido meses ou anos antes, foi somente com dois dias de antecedência que a Prefeitura decidiu convocar seus trabalhadores para atuar no feriado, “em razão da epidemia de dengue”! Um verdadeiro atestado de incompetência e de falta de planejamento, para não falar da falta de respeito com os trabalhadores...

O Fórum Popular de Saúde do Estado de São Paulo, por meio de seu Núcleo Campinas, vem trazer essas questões a público com o objetivo de organizar a população e retomar as lutas pela saúde na nossa cidade. Afinal, em junho de 2013 o povo foi às ruas dizer “Da Copa eu abro mão, quero dinheiro para Saúde e Educação”, e em 2014 estamos dizendo aos governantes que “Se não tiver Saúde não vai ter Copa”!




Francisco Mogadouro da Cunha (Chicão) – médico
Juliana Turno da Silva – enfermeira
Ed Carlos Correa de Faria – psicólogo



Trabalhadores do SUS, membros do Conselho Municipal de Saúde de Campinas e militantes do Fórum Popular de Saúde do Estado de São Paulo

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